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Quanto vale uma empresa: métodos de avaliação explicados

Por Fábio Ferreira, com a equipa de Gestão e Investimentos da Norporgest Atualizado a

Resposta curta

Uma empresa vale, no essencial, o que consegue gerar no futuro, ajustado ao risco de isso não acontecer. Na prática, o valor calcula-se com três métodos: fluxos de caixa descontados, múltiplos de empresas semelhantes e valor patrimonial. Numa PME, o resultado depende muito dos ajustes às contas, da dependência do dono e da concentração de clientes. O valor é uma estimativa com intervalo; o preço é o que se acorda na negociação.

Quando é preciso avaliar uma empresa

Venda ou compra

Para saber que preço pedir ou oferecer, e para negociar com base em critérios.

Sócios

Na entrada ou saída de um sócio, e em desacordos sobre o valor das quotas.

Fusões e aquisições

Para definir a proporção de cada parte na empresa resultante.

Sucessão e partilhas

Quando a empresa passa para a geração seguinte ou entra numa partilha.

Financiamento

Na entrada de investidores ou em operações que exigem conhecer o valor do capital.

Gestão

Para perceber se a empresa está a criar valor ao longo do tempo, e o que o faz subir.

Valor e preço não são a mesma coisa

O valor é uma estimativa técnica, baseada em números e pressupostos. O preço é o que comprador e vendedor aceitam. Um comprador que ganha sinergias com a compra pode pagar acima do valor; um vendedor com pressa pode aceitar abaixo. A avaliação serve para negociar com uma base sólida, não para fixar um número exato.

Há ainda uma distinção importante: o valor da empresa é o valor do negócio como um todo; o valor do capital próprio, que é o que interessa aos sócios, obtém-se retirando a dívida líquida ao valor da empresa. Uma empresa com muita dívida pode ter um bom negócio e, mesmo assim, um capital próprio de pouco valor.

Os três métodos mais usados

Método 1

Fluxos de caixa descontados

Projeta o dinheiro que a empresa vai gerar nos próximos anos e traz esses valores para hoje, com uma taxa que reflete o risco. É o método mais completo, mas depende muito da qualidade das projeções.

Método 2

Múltiplos de mercado

Compara com empresas ou transações semelhantes, aplicando um múltiplo a um indicador, muitas vezes o EBITDA. É rápido e fácil de explicar, mas exige comparáveis realmente parecidos.

Método 3

Valor patrimonial

Soma o valor de mercado dos ativos e retira as dívidas. Útil em empresas com muitos imóveis, com prejuízos ou em liquidação. Ignora o valor do negócio em funcionamento.

Na prática

Usar mais do que um

Uma boa avaliação cruza pelo menos dois métodos e apresenta um intervalo de valor, explicando porque se dá mais peso a um do que a outro.

Exemplo ilustrativo pelo método dos múltiplos. Uma empresa tem um EBITDA normalizado de 200 mil euros por ano. Se empresas semelhantes do setor forem transacionadas a cerca de 5 vezes o EBITDA, o valor da empresa ronda 1 milhão de euros.

Se a empresa tiver 300 mil euros de dívida líquida, o valor do capital próprio ronda 700 mil euros. Os múltiplos variam muito com o setor, a dimensão e o momento, e este número serve apenas para mostrar o raciocínio.

Ajustar as contas antes de avaliar

As contas de uma PME são muitas vezes feitas a pensar nos impostos, não em mostrar o verdadeiro desempenho do negócio. Antes de avaliar, é preciso normalizar os resultados.

  • Remuneração dos sócios acima ou abaixo do que se pagaria a um gestor contratado.
  • Gastos pessoais suportados pela empresa, que um comprador não vai ter.
  • Gastos e rendimentos não recorrentes, como uma indemnização ou a venda de um ativo.
  • Rendas de imóveis dos sócios fora dos valores de mercado.
  • Stocks e créditos que já não valem o que está registado.

Estes ajustes podem mudar muito o resultado. É também aqui que o controlo de gestão faz diferença: uma empresa com informação de gestão fiável é mais fácil de avaliar, e vale mais.

O que faz subir ou descer o valor

Faz subir o valorFaz descer o valor
Resultados estáveis e a crescerResultados irregulares ou a cair
Clientes diversificadosPoucos clientes com peso grande
Equipa que funciona sem o donoNegócio que depende de uma pessoa
Contratos recorrentesVendas pontuais e imprevisíveis
Informação financeira organizadaContas desatualizadas ou pouco fiáveis
Setor com procura a crescerSetor em declínio
Pouca dívidaEndividamento elevado

Particularidades das PME

Avaliar uma PME não é avaliar uma grande empresa em ponto pequeno. A dependência do fundador, a concentração de clientes e a menor liquidez das quotas pesam no valor, e é comum aplicar um desconto por isso. As PME tendem também a ser transacionadas a múltiplos mais baixos do que as grandes empresas do mesmo setor.

O lado bom: muitos destes fatores podem ser trabalhados antes de uma venda. Reduzir a dependência do dono, diversificar clientes e organizar a informação podem aumentar o valor de forma significativa num ou dois anos.

Como decorre uma avaliação

  1. Definir o objetivo

    Venda, entrada de sócio, partilha ou gestão. O fim da avaliação influencia os métodos e os pressupostos.

  2. Recolher a informação

    Contas dos últimos anos, balancetes, carteira de clientes, contratos, dívidas e ativos.

  3. Analisar e normalizar

    Perceber o desempenho real do negócio e ajustar as contas.

  4. Projetar e aplicar os métodos

    Construir projeções credíveis e aplicar pelo menos dois métodos.

  5. Apresentar o intervalo de valor

    Com os pressupostos e critérios explicados, para poder ser discutido e defendido.

Perguntas frequentes

Uma empresa com prejuízos vale zero?

Não necessariamente. Pode ter ativos com valor, uma marca, clientes ou potencial de recuperação. Nesses casos o método patrimonial e as projeções ganham peso.

Que múltiplo se usa para empresas portuguesas?

Não há um número único. Depende do setor, da dimensão, do crescimento e do momento do mercado. Aplicar um múltiplo sem comparáveis adequados é um dos erros mais comuns.

A mesma avaliação serve para tudo?

Não. Para alguns efeitos fiscais e legais aplicam-se regras próprias. Diga sempre ao avaliador para que fim é a avaliação.

Preciso de uma avaliação independente?

Em transações relevantes e em desacordos entre sócios é fortemente recomendável. Uma avaliação feita por uma das partes tem pouco peso na negociação.

Quanto tempo demora?

Depende sobretudo da informação disponível. Com contas organizadas e dados acessíveis, o processo é muito mais rápido.